quinta-feira, maio 01, 2008

Maior que Elvis

Li há dois ou três dias um artigo na revista Slate que me chamou a atenção, por o achar diferente daquilo que estamos acostumados a ler. Parece-me uma visão séria de alguém que realmente se deu ao trabalho de conhecer a carreira de Mariah antes de começar a escrever enormidades, como aquelas que meia volta nos aparecem pela frente.
Por isso resolvi traduzir na íntegra para que todos possam ler, embora seja um bocadinho extenso, acho que vale a pena.

Porque é que os detractores estão errados acerca de Mariah.
O Rei e a Rainha. Este mês, Mariah Carey eclipsou o recorde de números 1 da billboard, de artista a solo que pertencia a Elvis Presley, com o seu 18º single a chegar ao topo da tabela - Touch My Body. O primeiro single do seu sólido novo álbum E=MC² - cujas vendas da primeira semana, 463 mil cópias, foram as mais altas de Carey em toda a carreira e as maiores de qualquer artista este ano. Agora apenas os Beatles têm mais números 1 e Carey irá certamente alcançá-los em breve, embora e para sermos justos, os Beatles conseguiram os seus 20 números 1 em apenas 7 anos, um recorde que certamente ninguém conseguirá igualar.
As notícias do triunfo de Carey foram recebidas por muitos com protestos. O The Presley Estate [gestão do legado de Elvis] entrou pela parte técnica, argumentado que a Billboard tinha errado nos números apresentados e que na verdade Mariah estaria apenas empatada com Elvis. No blog do Hunffington Post um artigo com o título "Mariah Carey está a destruir o mundo" Ken Levine escreveu "Pela saúde deste país e digamos isto de uma forma simpática, Mariah Carey tem que se reformar.Pode sempre apresentar um reality show na VH1 ou aprender algo no Devry Institute". Editoriais apontaram de forma soberba para o óbvio: seja qual for a contagem usada, Carey não igualou Presley ou os Beatles na sua enorme influencia cultural, algo que a própria Mariah afirma. "Sinto-me muito contente e grata," disse á Associated Press. "Eu nunca me poderei equiparar a pessoas que não só revolucionaram a música mas também mudaram o mundo."
Humildade não é coisa muito natural em Carey, por isso temos de lhe dar os parabéns pelo gesto. (quase conseguimos ouvir o ranger de dentes quando diz estas palavras: nunca...me...poderei.... equiparar...) Mas ela precisa mesmo ser tão modesta? Claro, Carey não é tão importante como Elvis ou os Beatles, nem nenhum outro músico dos últimos 50 anos, possivelmente com a excepção de James Brown e Bob Dylan. Mas ela é, indiscutivelmente bastante significante, e não apenas porque, como Elvis disse, 50 milhões de pessoas - ou no caso das vendas de álbuns de Carey - 61.5 milhões de pessoas - não podem estar erradas.
O feito de Mariah, começa, obviamente, com a sua voz, ou melhor a voz que possui uma força ciclónica capaz de atingir inúmeras oitavas, que conseguem partir vidro e de induzir ataques epilépticos musicais a mulheres japonesas.
Carey é o estilo vocal mais influente das últimas duas décadas, a pessoa que transformou os melismas rocócó, adornando sílabas com notas múltiplas, o ubíquo estilo pop. O exemplo máximo é o American Idol, que com frequência eliminou imitadores do estilo de Mariah. E hoje quase 20 anos depois da sua estreia, as maiores editoras discográficas continuam a apostar em produzir jovens estrelas, tais como a ganhadora do Pop Idol inglês, Leona Lewis, com o estilo de Mariah, big voice e big hair.
O desenfreado uso do melisma gerou considerável criticismo. (Eu prório o critiquei há vários anos atrás num artigo no New York Times - cujo tom e referências a Carey agora lamento). É certamente verdade que um uso abusivo desse mecanismo, particularmente por vocalistas medíocres, pode ser irritante. É também verdade que muitos performers, na escravidão do hit "Vision of Love" de Carey - cujo crítico Nova Iorquino Sasha Frere-Jones sabiamente chamou "a magna carta do melsima" - parece que perderam o interesse na melodia e na letra e seu significado, enchendo canções com dezenas, centenas, de notas gratuitas.
Mas é injusto culpar Carey pelos pecados dos seus imitadores menores, ou julga-la baseados num conjunto de valores musicais que ela explicitamente rejeita. Emoção não é o principal das canções de Carey, nem mesmo quando canta "Emotions". A sua música é antes de mais uma expressão de poder e destreza técnica. Há lugar na pop para pretensiosismo, especialmente quando acompanhado de virtuosismo. Aprendi a gostar do estilo de Carey, pela sua força bruta, deslumbrante técnica e, sim, alarido - para colocar o estilo vocal de Mariah em paralelo com a tradição de John Coltrane "Sheets of sound", os golpes de bateria de John Bonham dos Led Zepplin e Eddie Van Halen "Eruption"
(também conhecida como a magna carta dos solos de guitarra dos anos 80). Ouçam as notas finais que Carey canta em "Someday" da sua actuação de 92 no MTV Unplugged. A cabeça de caniche de Mariah não é a única coisa heavy metal que ela tem.
Carey pode não ter tido o impacto "sísmico" de Presley, mas há muito mais, espírito dos tempos mas suas grandes, sentimentais e bem sucedidas baladas dos anos 90. Um historiador de cultura pode detectar a complacente vibração boa-disposição do pós guerra fria da era Clinton, ou talvez um gigantismo musical semelhante ao gigantismo literal nos anos de pico de esteróides do basebol. O que eu ouço mais nitidamente, mesmo na inspirada "Hero", é hip-hop, num paralelismo aos rappers que conquistaram a cultura pop dos anos 90. Afinal, Carey esteve envolvida numa rivalidade quase tão violenta como a de Biggie e Tupac: uma luta mordaz de anos com Whitney Houston, que ela igualou melisma por melisma,cliché por cliché.
Todos sabemos quem ganhou a batalha. A verdade é que Houston, no seu melhor, era uma cantora mais talentosa, mas Carey foi sempre mais versátil e mais interessante como artista. Ela co-escreve as suas canções desde o início da carreira e quando não explodia com baladas, demonstrou apetência por canções mid-tempo com um som pop clássico: Dreamlover de 93, Always Be My Baby de 96, poderiam ser incluídas numa compilação de hits de meados dos anos 60 da Motown. Com o seu álbum de 95 Daydream, Carey fez a sua maior mudança, satisfazendo o seu amor pelo hip-hop pela primeira vez. Trabalhou com o produtor Jermaine Dupri - até hoje o seu colaborador mais importante, fez um dueto com Ol'Dirty Bastard no remix do seu primeiro single "Fantasy".
Foi uma mudança que arriscou alienar milhões de fãs que a conheciam como a rainha das rádios adult contemporary, gostavam dela assim e não conseguíam perceber porque é que ela andava com um rapper de dentes escuros que rimava "Mariah with a pacifier [Mariah com chupeta]".
Isto foi uma inteligente mudança no rumo da sua carreira. A mistura híbrida de pop, R&B e hip-hop que domina hoje o top 40 era uma inevitabilidade que Mariah viu primeiro que os outros, e assim apressou o futuro.
Hoje Carey é inequivocamente uma estrela "hip-hop soul", em harmonia com o seu íntimo, cantando em cima de beats digitais sobre as suas malas de design, jacuzzis e videos sexuais. Alguns críticos argumentam que Carey não é genuína, mas para mim parece que é muito menos forçado que os seus sussurros acerca de borboletas e arco-íris. Na verdade a mudança de Carey é importante para poder manter-se no topo com concorrentes como as Beyoncés e Rhiannas mas é também uma aposta pessoal. Chamou o seu extremamente bem sucedido álbum de, The Emancipation of Mimi, e a emancipação a que se refere é musical; o drama central da carreira de Carey foi o seu casamento, e subsequente divórcio, do presidente da Sony Tommy Mottola, que aparentemente fez tudo o que podia para anular os impulsos hip-hop de Carey.
Uma luta pelo repertório não é propriamente material de uma história de diva trágico-sexy. Sejamos honestos: comparada com os seus rivais mais jovens, Mariah é bastante aborrecida. Ela nem sequer consegue dançar. Os seus vídeos são monótonos. A sua vida privada, mesmo com o colapso nervoso, não entusiasma os tablóides. A sua ambiguidade racial é medianamente interessante: como filha de uma católica-irlandesa e de um afro-venezuelano. Mariah confundiu os americanos com a sua identidade bi-racial quando Obama ainda fazia exames de direito em Harvard. É muito mais irresistível como criadora de música do que como pessoa pop. Ela é diva da obsessão por música.
O que mais se destaca na sua transformação pós-Mimi foi o que mudou na sua maneira de cantar, misturando a velocidade, as pausas e as influencias rap. E=MC² é um álbum de R&B moderno passando por mid e up-tempos e disco sound, com menos baladas que os seus álbuns anteriores. A maioria das canções oscilam entre alguns acordes que demonstram o ritmo e locução de Carey e não a sua amplitude vocal.
A faixa mais chocante deste álbum é "Migrate". Em cima de um beat emaranhado do protegido de Timbaland, Nate "Danja" Hills, Mariah canta com o Sr voz de robot, T-Pain e ainda com T-Pain e um distorçor da sua famosa voz que adiciona efeitos Sci-fi, é um acto de auto-sabotagem que nunca antes se achou imaginável. Claro que Mariah não abandonou todos os seus velhos hábitos. Migrate tem um loop de teclado parecido com uma flauta, mas a primeira coisa que se ouve na canção não é o teclado mas sim Mariah, vibrando desalmadamente com o seu registo agudo. Suponho que ela queria começar o álbum com um aviso - para os fãs, rivais, Tommy Mottola, fantasma de Elvis - que ela ainda consegue.
A frase que me vem à mente é, privilégio digno de uma rainha.

8 comentários:

Anónimo disse...

O artigo está Impecável! :-) Muito claro e traçando uma análise global da carreira da Mariah, tocando diversos pontos fulcrais. Uma visão sintética e que torna óbvio porque é que a nossa Mimi é uma figura incontornável no panorama musical. Obrigada por trazerem até nós estas pérolas. :-)

Sara

Sandra disse...

:P obrigada Sara, isto foi puxadinho... :P espero que se perceba bem. ***

Anónimo disse...

Ufaa, ainda se escrevem criticas destas. Sem dúvida muito boa, com pés e cabeça.
Muito bem Sandra, obrigada :D

Anónimo disse...

Obrigada pela tradução, um belo artigo! parabens sandra

Anónimo disse...

Wow! Muito bem traduzido! Paranbén!

Anónimo disse...

Realmente a tradução está muito boa pois quando estava a ler em português estava a pensar em Inglês, e consigo imaginar esta critíca escrita em Inglês!
Gostei bastatnte da critíca, acho que está muito coerente e como disseste ni inicio, nota-se bem que quem a escreveu sabia algumas coisas sobre a nossa Mariah Carey!
Os meus Parabéns!

Anónimo disse...

Adorei a crítica, muito consistente de alguém que enfim, conseguiu entender um pouco sobre a nossa Mariah, bem diferente de alguns que nunca conseguem enxergas pontos positivos nela, amei!!!Parabéns

Anónimo disse...

Adorei a tradução parabéns, finalmente alguma crítica bacana, que vê MC como ela realmente tenta se mostrar de verdade... Amei