segunda-feira, setembro 07, 2009

O efeito Thriller

Até há pouco tempo, a americana Whitney Houston era uma artista moribunda. A intérprete do hit I Will Always Love You não gravava discos desde 2003. Viciada em crack, Whitney exibia um rosto irreconhecível de tão devastado pela droga. Saco de pancadas do marido, o cantor e produtor Bobby Brown, ela entrava e saía de delegacias e clínicas de reabilitação. O fundo do poço foi sua participação, em 2005, num reality show que expunha a degradação do casal. Naquele momento, contudo, o americano Clive Davis, executivo que havia lançado a cantora nos anos 80, já tramava algo que poderia parecer improvável: a ressurreição de Whitney Houston. Lançado nos Estados Unidos na semana passada, I Look to You, o primeiro disco de canções inéditas da cantora em sete anos, é o resultado da empreitada – e tem tudo para cumprir seu intento. O álbum teve boa acolhida da crítica e foi aguardado com tal ansiedade pelos fãs que seu lançamento foi antecipado (no Brasil, deverá chegar em novembro). Com esse retorno, Whitney se junta às colegas Mariah Carey e Britney Spears como mais uma beneficiada pelo "efeito Thriller". As três foram tidas como finadas em algum ponto da década. Mas, assim como os zumbis do videoclipe de Michael Jackson, saíram da tumba para dar a volta por cima.

Essas "viradas" seguem um ritual similar. A primeira providência é submeter a artista a uma espécie de ressuscitação artificial: contratam-se produtores da moda para reciclar seu estilo e repertório. Para recolocar Whitney em sintonia com a cena musical, Clive Davis mobilizou artistas do primeiro escalão da música negra. O cantor R. Kelly e o rapper Akon produziram o CD, enquanto Alicia Keys lhe cedeu uma composição. O segundo passo consiste numa mudança radical de atitude. Temida por seus ataques de diva em hotéis e restaurantes, Mariah Carey virou um docinho de coco depois de ser dispensada pela gravadora Virgin, em 2002. Na coletiva de imprensa armada para apresentar a "nova" Whitney, a artista ressurgiu com aspecto mais saudável. Antes, já havia se livrado de seu "encosto": rompeu com Bobby Brown, acusando-o de pai desnaturado (os dois têm uma filha). A terceira medida: a artista deve expiar seus problemas nas músicas. Num dos álbuns de sua nova fase, E = MC2 (2008), Mariah valeu-se de uma canção para destilar seu ódio de Tommy Mottola – depois do fim do casamento com o ex-presidente da Sony, ela passou a ser boicotada por ele na gravadora. Britney usou do CD Blackout (2007) para ironizar seus escândalos e brigas com paparazzi. Whitney, por fim, alude aos problemas com drogas e ao ex violento em I Look to You.

Para que o efeito Thriller funcione, entretanto, é preciso antes combinar com os russos – quer dizer, o público. Em 2001, Mariah tentou dar uma sacudida no marasmo em que sua carreira então já se encontrava, com um disco em que abandonou a pose de santa e flertou com novos estilos musicais. Foi um fiasco. Nenhuma estratégia de recolocação é eficaz, afinal, se não houver um reconhecimento tácito dos fãs de que uma artista caída faz por merecer que lhe estendam a mão. Há uma questão de timing: não adianta querer tirar uma cantora do limbo se ainda não se concluiu o processo de execração pública por que sua imagem está passando. Mas, depois que se cumpre um certo período de carência regulamentar (que no caso de Whitney foi de longos sete anos), essas mesmas adversidades curiosamente se convertem num capital precioso. Num momento em que a onipresença do R&B faz com que todas as cantoras pop americanas se pareçam, o passado sofrido torna-se um diferencial estratégico. Mais do que música, essas mortas-vivas acenam ao público com a possibilidade de ser testemunha, confidente ou, simplesmente, observador indiscreto da vida delas. A voz de Whitney já não tem a vivacidade de outrora. Mas quem disse que uma zumbi precisa disso?


Fonte: Veja

3 comentários:

André C. disse...

eu sinceramente não acho sequer justo compararem o regresso da mariah nem ao da whitney, nem ao da britney. o emancipation foi e é um dos melhores albuns para ela, foi considerado o maior regresso de sempre (pela vh1) e teve um sucesso estrondoso. acho que não se pode comparar, tanto em termos de mediatismo como de material. eu ouvi o álbum da whitney e apesar de não desgostar, não consigo encontrar ali um single mega estrondoso como we belong together, que foi o grande impulsionador do regresso dela. espero MESMO estar enganado, mas opiniões são opiniões!

Anónimo disse...

Sinceramente o álbum TEOM da Mariah foi primoroso, muito sofisticado e de R&B que eu não conhecia, não consigo identificar o retorno do cd da Whitney neste context, pelo contrário, achei o álbum dela muito fraco, se impacto e diferencial, a voz também não é mais a mesmo no Good Morning America percebe-se nitidamente que voz já era mesmo a performance a presença de palco foi impecável, ela utilizou bem os espaços intergiu com a platéia, mas cantar nada, ficou tudo pros backings ela até pedia desculpas pela voz.

Anónimo disse...

A Britney nem se compara, ela é um ótima performance e só, a coitada mal canta e qdo dança, canta playback.
A Whitney trabalhou com seu mentor Clavis, mas o retorno nem sem compara ao da Mariah( que inclusive teve o slogan o retorno da voz), todos sabemos que a voz da Whitney era bem melhor que a da Mariah, porém a Mariah soube se diferenciar no seu próprio estilo, era de se esperar que a voz da Whintey tivesse sofrido danos, talvez gente irreparáveis, mesmo com tratamentos, (minha amiga cantora está tentando se recuperar dos calos há mais de um ano, mas continua completamente rouca), eu torço pela voz da Mariah e da Whitney, pois são seu instrumentos de trabalho mais valiosos, e agora a crítica da pegando pesado porque a Whitney falhou na apresentação do Good Mornin América, quando não é a Mariah sempre aparece outra.